Amores vagos no Ponto de Leitura de BH

Recebemos as fotos que ilustram este post do escritor Sérgio Fantini, também funcionário da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte. É ele quem nos conta:

“PONTO DE LEITURA é uma atividade da Fundação de Cultura de BH que acontece todos os domingos no coreto do parque municipal: expomos livros e revistas entre 9 e 13h. As pessoas chegam e pegam o que lhes interessa e se sentam e ficam por ali.

O parque fica no centrão da cidade. O público é bem variado, formado por crianças até idosos, e prioritariamente ‘popular’.”

Livros e revistas do Ponto de Leitura (BH). Foto enviada por Sérgio Fantini.

Leitora de "Amores vagos" numa praça em BH. Foto enviada por Sérgio Fantini.

Em BH, no Ponto de Leitura. Foto enviada por Sérgio Fantini.

4 Comentários

Arquivado em Eventos

UM AMOR FULGURANTE (Miriam Mambrini)

Tela da artista Vanessa Stafford, copiada do site: http://farhatartmuseum.blogspot.com/2010/10/vanessa-stafford-naive-artist.html.

A primeira vez que o vi foi numa foto da turma de meu irmão no colégio. Bem no meio do grupo de adolescentes uniformizados, lá estava ele, nem mais bonito, nem mais feio do que os outros. Talvez mais sério, embora todos ali estivessem sérios, até Luis que vive rindo e fazendo piada de tudo.

“Quem é esse?”

“É o Fúlvio”.

“Fúlvio? Que nome!”

“O Fúlvio é gênio.”

“É por isso que tem esse nome?”

Luís fez uma careta, disse “engraçadinha!” e partiu para alguma de suas atividades turbulentas. Era diferente de mim, que vivia mergulhada em livros. Peguei o retrato e levei para o quarto.

No dia seguinte, olhei de novo o rosto de Fúlvio. Tinha sobrancelhas muito grossas que acentuavam o escuro dos olhos. Sobrancelhas que nenhum ali tinha. E ainda havia o nome: Fúlvio. Ninguém que eu conhecesse se chamava Fúlvio. Um nome que parecia em chamas, fulgurando, refulgindo, fulminando. Além disso, era gênio, aprendia depressa praticamente sem estudar, segundo Luís. Eu estava sempre buscando notas altas para provar que era inteligente, mas elas só vinham após muitas pestanas queimadas em velas simbólicas. Eu admirava os gênios, invejava os gênios.

Os colegas de Luís eram uns pirralhos. Viviam se empurrando, rindo, falando alto, usavam aparelhos nos dentes, tinham espinhas no rosto, cheiravam a suor. Fúlvio, eu nunca vira. Ele era aquela imagem comportada da foto. Parecia mais velho do que os outros, mais homem. De tanto olhá-lo, comecei a perceber novos detalhes além das sobrancelhas grossas e dos olhos escuros. As orelhas eram bem coladas ao crânio, os cabelos, espessos, talvez ásperos, o nariz bem feito, quase feminino.

“Luis, por que é que você nunca trouxe o Fúlvio aqui em casa?”

“Ele não é da minha patota”

E depois de um silêncio:

“Perdeu o pai no princípio deste ano”.

“Coitado! Chama ele pra vir aqui.”

Luis me olhou desconfiado.

“Por quê?”

“Sei lá, pra consolar ele”.

A primeira vez que vi Fúlvio em pessoa foi na porta do colégio, no dia em que levei a caderneta que Luis esqueceu em casa. Havia um bolo de adolescentes em algazarra na rua. No meio de toda aquela agitação,  meus olhos esbarraram no rapaz da foto. Quando o encarei, ele desviou seus olhos rapidamente. Era muito mais jovem do que no retrato. Mesmo assim, levada não sei por que demoniozinho interno, tentei recuperar aquele olhar tímido. Olha pra mim, Fúlvio! Olha! Mas o menino ainda não estava pronto para enfrentar o olhar de uma mulher com seios, cintura fina, saltos altos. Mulher de quase dezessete anos.

Achei Luis, entreguei a caderneta.

“Aquele ali é o Fúlvio?”

“É”

“Parecia mais velho na foto”.

“É o mais moço da turma. Ainda não fez quinze anos”.

Abri caminho entre os adolescentes que começavam a entrar pelo portão de ferro do colégio. Fúlvio agora estava na minha frente. Num impulso, passei a mão na sua cabeça. Senti a textura de seus cabelos. Eram mesmo ásperos. Ele se voltou assustado. Fiz um ar distraído de não estou aqui, mas tenho certeza de que percebeu que tinha sido minha a mão a tocá-lo.

Voltei à porta do colégio alguns dias depois, na hora em que as aulas começavam. Sabia que Luis não estaria lá. Ficara em casa, de cama, gripado. Fúlvio esperava que a porta abrisse, encostado numa árvore, isolado dos outros.  A sombra dos galhos desenhava figuras de sombra e luz no seu rosto.

Me aproximei. Ele saiu de onde estava, sem se apressar nem olhar pra mim. Como se tivesse tomado a decisão de ir para outro lugar por causa de pequenas folhas que caíam sobre ele.

“Está com medo?”, perguntei alto.

Ele parou.

“Medo de que?”

“De mim”.

Ele sorriu. “Não usa aparelho”, pensei com alívio.

“Não tenho medo de nada”, disse e se dirigiu à porta do colégio.

Uma semana mais tarde, apareceu lá em casa depois da aula. Tinha se oferecido para estudar matemática com o Luis que estava arriscado a não passar de ano. Foram os dois para o quarto do meu irmão.

Fiquei esperando por uma ocasião para estar a sós com ele. Finalmente Luís saiu do quarto, dizendo que ia ao banheiro. Devia estar cansado da matemática e do geniozinho. Fúlvio ficou sozinho. Entrei, me sentei ao lado dele na cama. Não disse nada. Peguei sua mão e coloquei-a no meu peito. Com minha mão por cima da dele, fiz com que sentisse o volume dos seios, e os bicos durinhos. Depois me curvei e beijei-o rapidamente na boca.

Me levantei depressa para que meu irmão não me surpreendesse ali. Antes de sair, disse seu nome e só isso. Deixei-o estatelado, sem ação. Devia ser seu primeiro beijo, seus primeiros seios. Eu mesma estava sem fôlego, espantada de ter feito aquilo.

Houve estudos nos dias que se seguiram. E momentos em que Luis se cansava, ia dar uma volta e deixava o colega sozinho. Com o coração batendo forte, eu entrava. A cada dia, me desembaraçava mais. Não tinha vergonha de nada, fazia tudo o que me dava vontade, sempre em silêncio, exceto pelo nome dele, que eu dizia, ás vezes acompanhado por um adjetivo: Fúlvio fulgurante, Fúlvio fulgente, Fúlvio fulminante.

Naqueles breves momentos em que ficamos a sós, aprendi coisas e ensinei coisas. Seu rosto infantil parecia amadurecer sob as minhas carícias. Ele também perdia a vergonha. Como eu, calado. Uma vez, apenas uma vez, depois que demos um beijo de língua mais demorado, disse meu nome: Lavínia.

Tudo sempre acontecia de forma intensa e rápida, os passeios da minha mão audaciosa, os tateios de seus dedos desajeitados, os encontros de nossas bocas famintas. Nossa estréia nos mistérios do amor se fazia com ansiedade e pressa, os ouvidos atentos a qualquer barulho. Não havia tempo a perder. Luis podia voltar. Alguém podia entrar. Por milagre, nunca fomos surpreendidos.

Acabaram as provas, chegaram as férias. Fúlvio não veio mais. Arranjei um namorado no calor do réveillon, um estudante do último ano de economia, e passei a sair com ele. Depois de algum tempo, comecei a transar com meu namorado. Dois anos depois, nos casamos.

Quanto a Fúlvio… Fúlvio?

 

4 Comentários

Arquivado em Contos

Notícias Estilingueiras e lançamento Plástico Bolha

O pessoal do Estilingues está um pouco sumido, mas, não se enganem, não está parado. Em novembro, estaremos na 4a. Felit, em São João Del Rey. Aguardem um pouco e daremos detalhes de nossa participação nessa festa que homenageará Ana Maria Machado.

O post de hoje, todavia, é para divulgar o lançamento de um livro. A coletânea é de autores que gira em torno do Plástico Bolha, entre eles Marilena Moraes. A “festa” é no próximo dia 4 de novembro, às 19h30m na Livraria Ponte de Tábuas. O convite está logo aqui. Com certeza, outros estilingueiros estaremos por lá.


Deixe um comentário

Arquivado em Contos

Evento na Casa Rosa – Rio de Janeiro

Na primeira semana de outubro, a famosa Casa Rosa, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, receberá o evento de poesia “Apuncultura”. Poetas, preparem seus trabalhos e subam a Rua Alice.

Nós, estilingueiros, devemos pintar por lá, levando, claro, alguns exemplares do “Amores vagos”.

Deixe um comentário

Arquivado em Eventos

Uma leitura de Amores vagos

Amores vagos ganha sua primeira leitura crítica.

Paula Laranjeira é formada em letras e vive no  interior da Bahia. É dela um dos blogs que seguimos, o “Pesponteando: retalhos literários”.

O livro, desse modo, alcança o objetivo do projeto Estilingues, pois viaja do Rio para o interior da Bahia e dali volta lido e comentado.

Pois bem, o texto está no blog citado, bem aqui. Convidamos vocês, amigos estilingueiros, a espiar o que Paula Laranjeira viu em nosso “Amores vagos”.

Deixe um comentário

Arquivado em Eventos

Você pode ganhar um “Amores Vagos”

O blog Sobrecapa está promovendo o sorteio de 4 livros, entre eles o nosso “Amores vagos”. São três chances. Corra lá e boa sorte.

A promoção fica no ar até o dia 17 de setembro.

Deixe um comentário

Arquivado em Eventos

SEBO NAS CANELAS – reflexão de Marilena Moraes

Acabamos de descobrir que AMORES VAGOS foi colocado à venda num sebo ─ dois exemplares.
Talvez seja natural passar adiante os livros dessa forma: já li, faço espaço na estante, garanto alguns trocados; recupero, ao menos em parte, o investimento. Nesse caso, não houve “investimento”. Amores não se vendem. Nem se vende AMORES VAGOS.

Amores Vagos não se vende.

Já encontrei em sebos antologias de que participei e livros que traduzi. Meu nome aparece numa busca simples no site que reúne os sebos. Tudo bem, nenhum desdouro. Estou bem acompanhada.
Mas, dessa vez, é diferente. AMORES VAGOS não foi comercializado. A intenção do grupo não é ganhar dinheiro, mas leitores. Para nossos textos, para os livros em geral. Daí sermos ESTILINGUES. Somos bons de mira.
Pensei em arrematar os exemplares. Assim como o namorado ciumento que compra as revistas em que a moça, em alguma época, pousou nua.
Depois ponderei que de nada adiantaria. Não queremos parar a ciranda proposta ─ que o livro percorra caminhos sem fim.
Espero, de verdade, que os exemplares colocados à venda tenham sido, ao menos, lidos. Pelo jeito, quem recebeu o presente não sabe para que serve um estilingue.

5 Comentários

Arquivado em Ideias

Da Paraíba, um cordel de Marilena Moraes

Animada pelos ares paraibanos, Marilena Moraes produziu esse delicioso “cordel”.

Voo 1793 – João Pessoa – Rio
Marilena Moraes

Estilingando com Maria Valéria Rezende. João Pessoa, agosto de 2010.

Maria Valéria convidou
O grupo estilingues vibrou
Se mandou pra João Pessoa
(que terra de gente boa)
Trocar experiências no evento
Com cheiro de sol, de mar, de vento
A festa é AGOSTO DAS LETRAS
É literatura na veia, êta
Fomos lá contar nossa história
Explicar que vagos amores
Podem unir sete escritores
Muita gente discutiu
Se o computador separou ou uniu
Se poesia também se tecla
Ou se o mouse espanta o poeta
Não se vire o rosto ao novo
Internet é do gosto do povo
Trocamos prosas e livros
Descobrimos mil motivos
Pra no Nordeste lançar
A ciranda dos sete amigos
Que querem seu texto espalhar
E ensinar a estilingar

1 comentário

Arquivado em Poemas

Notícias de João Pessoa

Estivemos estilingando em João Pessoa, no AGOSTO DAS LETRAS, a convite da escritora Maria Valéria Rezende.
Participamos da mesa redonda “Circulação do livro – ou dez maneiras de atrair leitores”. Tivemos a oportunidade de relatar nossa experiência de grupo e de oficina, além de distribuir exemplares de AMORES VAGOS. Faziam parte da mesa Maria Valéria (PB), Pedro Salgueiro (CE), Rinaldo de Fernandes (PB), com Antônio Mariano (PB) como mediador.
O evento discutiu a relação entre autores e editores, a crítica e a paixão, literatura e adaptações, além do atualíssimo tema “literatura e novas tecnologias”, em mesa com Edson Cruz (SP – portal Cronópius), Marcelino Freire (PE), Amador Ribeiro Neto (PB), com mediação de André Ricardo Aguiar, chefe da Divisão de Literatura da Funjope, ligada à Secretaria de Educação e Cultura de João Pessoa.
O evento reuniu oficinas, mesas redondas, lançamento de livros, mostra de curtas, shows musicais e performances teatrais e convidava: “quem quiser ler, ver e ouvir, que venha. O caminho das pedras é o caminho das artes.”
Sabemos que o inverso é verdadeiro ─ são muitas as pedras no caminho da escrita, e temos tentado quebrá-las… com estilingues.

Deixe um comentário

Arquivado em Eventos

Jornal Rascunho comenta o projeto Estilingues

O jornal Rascunho, na coluna Vidraça, de Luiz H. Pellanda, comenta o projeto Estilingues. Vale conferir. Não só a nota, mas todo o jornal, que, desde o Paraná, vem defendendo com unhas e dentes a literatura, com ênfase na brasileira contemporânea. Viva!

Deixe um comentário

Arquivado em Eventos